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terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Manaus tem surto de "primo" da dengue

São Paulo, sábado, 19 de fevereiro de 2011



Vírus semelhante provoca febre alta e dores fortes nas articulações e pode se espalhar pelo país com o "Aedes"

Epidemia saiu das áreas ribeirinhas amazônicas, espalhou-se pela capital e preocupa pelo risco de adaptação às cidades

JULIANA COISSI
DE RIBEIRÃO PRETO

O mayaro, um vírus semelhante ao da dengue e ao do chikungunya, que provoca febre alta e dores fortes nas articulações, saiu do isolamento de áreas ribeirinhas amazônicas e já causou uma epidemia em Manaus.
E existe risco real de que ele se espalhe para o país e se adapte ao mosquito Aedes aegypti, transmissor da dengue, já bem adaptado ao ambiente urbano.
Essas são as principais conclusões de uma pesquisa do infectologista Luiz Tadeu Moraes de Figueiredo, coordenador do Centro de Pesquisa em Virologia da USP de Ribeirão Preto, em parceria com o Instituto de Medicina Tropical do Amazonas.
O estudo deve ser publicado ainda neste ano, segundo o pesquisador, na "Vector Borne and Zoonotic Disease", uma das principais revistas sobre doenças transmitidas por vetores, da Universidade do Texas (EUA).
A pesquisa analisou 600 amostras de sangue de moradores de Manaus que estavam com febre alta. Em 33 casos, foi constatada a presença do vírus mayaro -o que caracteriza a epidemia, segundo Figueiredo.
Quatro pacientes tiveram hemorragia leve. "Isso nunca havia sido descrito até hoje no mayaro", disse.

SAINDO DA SELVA
No Brasil, circulam 210 tipos diferentes de arbovírus, que são aqueles transmitidos por mosquitos e outros artrópodes. O mayaro é o quarto em número de infectados, depois da dengue, da febre amarela e do oropouche (também na região amazônica), de acordo com o Instituto Evandro Chagas, do Pará.
Seu primeiro registro foi em 1955, numa epidemia no Pará. Até hoje, foram notificados mil casos, nunca antes em regiões metropolitanas.
Neste ano, o mayaro foi incluído pelo Ministério da Saúde na lista de doenças de notificação compulsória -aquelas que devem ser comunicadas obrigatoriamente diante de suspeitas.
Apesar de não haver registro de mortes por mayaro, os sintomas em alguns casos provocam mais sofrimentos do que no doente de dengue.

ALCANCE
DOENÇA AINDA ESTÁ RESTRITA, DIZ MINISTÉRIO

O Ministério da Saúde disse que, por enquanto, os casos de mayaro continuam restritos à região amazônica e que não vê um risco de que ele se espalhe pelo país. Segundo o coordenador do Programa Nacional de Controle da Dengue, Giovaninni Coelho, a doença ainda é específica e não tem registro de mortes. Em São Paulo, o Instituto Adolfo Lutz não tem registros de mayaro, segundo a Secretaria de Estado da Saúde.
 

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

O saneamento e a dengue

O ESTADO DE SÃO PAULO, São Paulo, 17 de fevereiro de 2011. Opinião.
 
A relação entre falta de abastecimento de água e alta ocorrência de casos de dengue no Brasil foi comprovada pelo último Levantamento Rápido de Infestação por Aedes aegypti (LIRAa) de 2010, um mapeamento realizado pelo Ministério da Saúde para identificar regiões em que é maior a presença do mosquito. Sem água nas torneiras ou submetidos a rodízios frequentes no abastecimento, moradores de várias regiões do País apelam para o estoque de água - em caixas ou outros sistemas improvisados e sem segurança.
No Nordeste, por exemplo, 72% dos focos de mosquito encontrados estavam em depósitos de água; no Norte, 48% dos criadouros encontravam-se em tonéis, tambores e poços. Os antigos focos - vasos, lajes, piscinas, pneus, entre outros - aparecem bem pouco nas estatísticas. No Norte, apenas 22,6% dos criadouros estavam nesses pontos.
Tão importante quanto as campanhas de conscientização e a vigilância nos focos de mosquito é, portanto, investir em obras de saneamento, e em ritmo acelerado. Embora haja recursos disponíveis, isso não tem ocorrido. A falta de projetos de qualidade impede que Estados e municípios se habilitem a receber verbas federais que poderiam financiar obras de abastecimento de água, esgotamento sanitário, manejo da água das chuvas, coleta e destinação de resíduos sólidos, além da preservação dos mananciais. Em 2010, pelo menos R$ 900 milhões deixaram de ser distribuídos pelo Ministério das Cidades. Do total de R$ 4,6 bilhões, R$ 3,7 bilhões foram contratados por meio do Programa Saneamento Para Todos, incluído no PAC.
Nenhum centavo deveria ser desprezado, pois em 16 Estados é alto o risco de surto de dengue, conforme o Ministério da Saúde: Acre, Alagoas, Amazonas, Bahia, Ceará, Espírito Santo, Maranhão, Mato Grosso, Pará, Paraíba, Pernambuco, Piauí, Rio de Janeiro, Rio Grande do Norte, Sergipe e Tocantins. Em São Paulo, o risco é considerado moderado. Mas representantes do Ministério afirmam que a alocação de recursos esbarra na pouca capacidade de endividamento das companhias estaduais de abastecimento e nas falhas graves dos projetos apresentados. Em 2011, o programa colocará à disposição de prefeituras e governos estaduais R$ 4,8 bilhões para obras de saneamento, recursos que, na maior parte, vêm das contas do FGTS.
Há dias, em entrevista à Rádio Nacional, o superintendente executivo da Associação das Empresas de Saneamento Básico Estaduais, Walder Suriani, explicou que o principal entrave para o setor é a burocracia. Segundo ele, é antiga a luta das estatais para que a União torne mais ágil a concessão dos financiamentos para obras de saneamento. Simplificar as exigências não significa abolir as garantias para que o dinheiro público seja bem aplicado. Significa adotar o ritmo de que o País precisa para resolver os problemas de saneamento que tanto afetam a saúde pública.
A Organização da Sociedade Civil de Interesse Público Trata Brasil reúne estudos que avaliam o esforço necessário para universalizar os serviços de água e esgoto no Brasil. Ela estima que são necessários investimentos de R$ 270 bilhões nesse setor nos próximos anos. Somadas as suas duas fases já apresentadas, o PAC prevê um total de R$ 85 bilhões em recursos para o saneamento. Embora ainda fique aquém do necessário, o esforço do governo federal deve ser reconhecido. Nas últimas décadas, o maior investimento realizado em saneamento atingiu R$ 3 bilhões por ano. Hoje, o total de recursos destinados a esse fim é mais do que o triplo. Mas é preciso que tanto as empresas de saneamento quanto o governo federal encontrem o melhor caminho para fazer uso dessas verbas.
Em janeiro, foram registrados mais de 26 mil casos de dengue em todo o País, sendo 10 mil deles na Região Norte. No ano passado, 1 milhão de brasileiros sofreram com a doença. Este quadro não deixa dúvida de que é urgente assegurar o acesso aos recursos, reduzindo a burocracia e garantindo apoio a quem tem a competência técnica para elaborar e executar bons projetos de saneamento.


terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Guerra (limpa) aos insetos

São Paulo, terça-feira, 15 de fevereiro de 2011




EMPÓRIO
Nutrição, receitas, escolhas saudáveis

EM CASA
Esses insetos que se multiplicam nas nossas casas, especialmente no verão, são inofensivos. Mas os venenos para combatê-los, não. Antes de passar para a artilharia pesada, tente espantar os hóspedes indesejados com soluções naturais, que não ameaçam a saúde das crianças ou dos animais domésticos. O entomologista Carlos Alberto Brandão lembra que alguns insetos até ajudam a manter outros longe. As formiguinhas, comuns em apartamentos, ajudam controlar as baratas, porque comem seus ovos.
Pernilongos
O cheiro da casca da laranja, do cravo, do limão, do manjericão e da citronela espanta os pernilongos. Para fazer um repelente, misture 100 gramas de folhas de manjericão, 100 gramas de citronela e um litro de álcool no liquidificador. Bata tudo, coe e coloque em um recipiente vedado. Uma vez por dia, pulverize o ambiente.
No lugar daqueles refis em pastilha dos aparelhos elétricos contra insetos, experimente usar um pedaço de casca da laranja ou de limão-siciliano.
Para fazer um repelente corporal, mergulhe um pacote de cravos no álcool por 30 dias. Depois, coe a mistura e junte 50 ml de óleo de amêndoas. Pode passar na pele, que é bom. Outra opção é misturar 200 ml de óleo mineral com 30 ml de óleo de andiroba e 30 ml de óleo de citronela -à venda em lojas de produtos naturais
Traças
Para exterminar traças e seus ovos de livros e pequenos objetos coloque-os dentro do freezer, em sacos plásticos vedados, por dois dias.
Sachês com folhas secas de lavanda, pimenta caiena, casca de cedro ou sálvia também espantam traças.
Passar óleo de lavanda nas superfícies onde ficam os livros também ajuda a manter as bichas longe dos armários
Carunchos
Os carunchos conseguem entrar em caixas de cereais e pacotes. Uma forma de evitar que isso aconteça é armazenar os alimentos que são alvo desse bichinho ( arroz, trigo e feijão) com algumas folhas secas de louro. Uma medida preventiva é colocar os pacotes recém-comprados dentro do congelador por dois dias. Isso vai matar ovos que possam já estar dentro da embalagem
Formigas
Cheiro de cravo, limão-siciliano e louro tem bons resultados para espantar formigas. Outro aroma do qual elas não gostam é o do vinagre branco. Misture o vinagre em partes iguais com água e pulverize no caminho das formigas. Para evitar ataques à comida dos animais de estimação, ponha a tigela em uma bandeja com água. Para que elas não subam até as folhas da sua árvore, envolva o tronco com fita adesiva dupla face até a altura de 7 cm
Baratas
Armadilha atóxica: besunte vaselina sólida nas paredes internas de um vidro. Dentro, coloque dois dedos de cerveja, pedaços de frutas e gotas de extrato de amêndoa. As baratas vão ficar presas no vidro. Depois, jogue água fervendo e despeje na privada. Outras opções: misture açúcar e bicarbonato de sódio (que mata os bichos) e espalhe em vasilhas pela casa; ou pingue óleo essencial de alecrim e eucalipto em algodão e distribua nos cômodos

Médicos acham casos "silenciosos" de dengue

Ribeirão Preto, Terça-feira, 15 de Fevereiro de 2011



Pacientes com febre baixa ou dor fraca também podem ter a doença

População tende a registrar casos mais graves por causa da reintrodução do vírus tipo 1, diz especialista

JULIANA COISSI
DE RIBEIRÃO PRETO

Febre alta, forte dores nas articulações e vômito são sinais claros de dengue. Mas médicos de Ribeirão Preto estão se deparando também com pacientes com sintomas mais leves, e que se confirmam vítimas da doença.
As manifestações clínicas da dengue em algumas pessoas mostram-se diferentes das habituais, segundo o diretor-clínico da unidade de emergência Unimed 24 Horas, Roberto Nakao.
"Temos encontrado paciente sem febre, sem dor e que está com dengue. Ou então ele só chega com uma pequena dor muscular, sem febre ou vômito, e que depois de investigarmos confirmamos que era dengue."
A Vigilância Epidemiológica de Ribeirão Preto diz não ter um levantamento estatístico para saber se há ou não um aumento de casos não tradicionais de sintomas.
Segundo o médico epidemiologista do órgão Cláudio Souza de Paula, a alteração de sintomas é característico na evolução da doença.
"Isso é esperado para a dengue. Na medida em que a doença sensibiliza as pessoas, há a tendência de aparecerem formas mais raras."
O mais comum é a manifestação de sintomas combinados, como a febre persistente, dor nos olhos, nos músculos e nas articulações, mas acontece de pacientes só apresentarem um deles, e com menor intensidade.
Para alertar sobre as mudanças da doença, a secretaria tem pedido que médicos de hospitais públicos e particulares redobrem a atenção com a doença. Uma reunião deve ser marcada ainda neste mês pela vigilância.
Segundo o epidemiologista Roberto Medronho, da UFRJ, a dengue é uma doença complexa que pode reunir uma variação do sintomas ou até não ter sintoma nenhum.
O mais comum atualmente, de acordo com o especialista, é a evolução para casos mais graves. Uma das razões é a reintrodução do vírus tipo 1, ao qual as pessoas estão mais suscetíveis.

SERTÃOZINHO
Com 61 casos positivos, a Secretaria da Saúde de Sertãozinho deve contratar mais 30 agentes para ajuda no combate à dengue.
A proposta, segundo o coordenador do Núcleo de Controle de Vetores, Ademar Prudente Correa, é que eles atuem orientando a população sobre a doença.
A cidade já tem 62 agentes para eliminar focos do mosquito Aedes aegypti. Sertãozinho, vizinha de Ribeirão, teme uma epidemia -em 2010, a cidade teve 497 casos.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Brasil se arma contra doenças na Copa


CORREIO BRAZILIENSE, Brasília-DF, 14 de fevereiro de 2011

Ministério da Saúde antecipa ações de prevenção direcionadas ao Mundial de 2014 e ativa Laboratórios Nível de Biossegurança 3 nos estados para barrar epidemias graves
Laura Valente
 
Beto Magalhães/EM/D.A Press %u2013 29/11/10
Para o infectologista Carlos Starling, estrutura epidemiológica é fundamental, mesmo sem grandes eventos, visto que a globalização permitiu grande movimentação de pessoas pelo mundo, criando oportunidade de transmissão de agentes infecciosos
Belo Horizonte — Um país aberto aos turistas, mas que pretende manter portas fechadas para os males que a concentração de torcedores do mundo inteiro pode trazer: vírus, bactérias e outros agentes patológicos, alguns causadores de doenças desconhecidas ou já erradicadas no Brasil, como o sarampo. Sim, ainda faltam mais de três anos para a Copa do Mundo de 2014. No entanto, várias ações do Ministério da Saúde (MS), projetos que começaram antes mesmo de o país ser escolhido para sediar o Mundial, já estão saindo do papel e servirão para proteger a população e os visitantes no período em que o país deve receber pelo menos 300 mil estrangeiros — fluxo de visitantes na África do Sul em 2010.

Um dos projetos prestes a ter início é em Belo Horizonte. A Fundação Ezequiel Dias (Funed) prevê para março a inauguração do primeiro laboratório do estado habilitado em termos de biossegurança para isolar e investigar agentes exóticos e/ou com alto poder de contaminação. O objetivo da monitoração é dos mais importantes: permitir que órgãos oficiais e agentes de saúde tenham resposta rápida frente ao risco de proliferação de doenças, principalmente as endêmicas e pandêmicas, e criem mecanismos de contenção e bloqueio, como a produção de vacinas.

NB3 Denominado Laboratório Nível de Biossegurança 3, ou NB3, a unidade de Belo Horizonte integra uma rede que deve ter mais 11 unidades nacionais e está em fase de certificação de equipamentos para entrar em funcionamento. Segundo declaração do ministério, “a capacidade de realizar diagnósticos é de extrema importância, principalmente sobre doenças cujo grau de risco biológico é desconhecido. Nesses casos, os Laboratórios NB3 são imprescindíveis, pois garantem o nível de segurança biológica adequada à manipulação para confirmação do diagnóstico desses agentes”.

Entre as doenças infecciosas mais preocupantes estão dengue, malária, febre amarela, influenza por H5N1 e H1N1, rubéola e sarampo, meningites, síndromes gastrointestinais, leptospirose, hepatites agudas e aquelas provocadas por bioterrorismo (com transmissão intencional de agentes normais ou modificados).

Além dos laboratórios, o MS já inaugurou 23 unidades dos Centros de Informações Estratégicas de Vigilância em Saúde (Cievs), como parte de uma iniciativa mundial para compor uma Rede Global de Alerta e Resposta a Emergências de Saúde, principalmente no caso de eventos de massa. “Hoje, existem centros estruturados em todas as secretarias estaduais de Saúde e em 23 das 26 capitais”, diz nota do ministério. Entre essas unidades estão o Laboratório de Saúde Pública do Distrito Federal, os da Fundação Osvaldo Cruz (Fiocruz) de Pernambuco, do Rio de Janeiro e da Bahia, o Instituto Adolfo Lutz e o Pasteur, ambos em São Paulo, entre outros.

“Esse projeto não foi criado para a Copa do Mundo, mas veio em uma ótima hora”, avalia Sônia Conceição Machado Diniz, bióloga especialista em diagnóstico laboratorial de doenças tropicais e responsável pelo Serviço de Virologia e Riquetsioses (doenças transmitidas por carrapatos) da Funed. “Aumentamos em muito nossa capacidade de prevenção, inclusive contra agentes desconhecidos que já deram trabalho, como o H1N1, da gripe suína, e o antraz, temido à época do atentado às Torres Gêmeas”, lembra.

Globalização Até a Copa de 2014, muito trabalho será realizado nos NB3 brasileiros. Na lista de ações imediatas, a bióloga de Minas relaciona a investigação de agentes transmissores de dengue (eles já estudam o tipo 4), febre amarela e tuberculose. Vale ressaltar que o laboratório da Funed não produz vacinas, função de outros setores da fundação, localizada no Bairro Gameleira, região oeste de Belo Horizonte, e das demais entidades que trabalham com vigilância epidemiológica, mas é a partir do trabalho deles que a Secretaria de Estado de Saúde e outros órgãos de saúde pública são acionados em caso de riscos. “Não há vigilância epidemiológica sem laboratórios especializados. Os investimentos nesse tipo de infraestrutura representam uma tranquilidade para todos nós, além de minimizar riscos para a população em geral, profissionais envolvidos e meio ambiente”, afirma Sônia Diniz.

Presidente da Sociedade Mineira de Infectologia, o médico Carlos Starling explica que a demanda existiria mesmo se o país não fosse sediar o Mundial. “Toda grande movimentação de pessoas pelo mundo cria a oportunidade de transmissão de agentes infecciosos de uma região para outra. A Copa do Mundo é um desses megaeventos, com riscos de mão dupla. Mas não podemos esquecer que mesmo o fluxo de viajantes normal é gigantesco. Portanto, a circulação de agentes infecciosos é uma realidade.”

Entre os principais agentes infecciosos Starling destaca o vírus da gripe, “que circula pelo mundo todos os anos e sofre mutações frequentes, exigindo uma monitorização constante para que as vacinas sejam produzidas a tempo”, além daqueles que transmitem malária, dengue, leishmaniose, doença de Chagas e febre maculosa, entre outros. “Todos são exemplos de doenças que podem circular de uma região para outra por meio de pessoas, vetores e animais infectados. Vírus, bactérias, fungos e parasitas viajam pelo mundo de uma forma tão dinâmica quanto as pessoas”, ressalta.

PrevençãoO médico diz que a troca de informações é fundamental como mecanismo de prevenção e destaca a importância das iniciativas do Ministério da Saúde. “A vigilância epidemiológica é a principal arma que dispomos para detecção precoce de casos de doenças infecciosas e de possíveis surtos. Quanto mais rápido o problema for detectado, maior é a possibilidade de controle e bloqueio do agente infeccioso, surtos e epidemias”, defende. “Nesse sentido, a criação dos Cievs é muito importante, para detectar de maneira precoce o aparecimento de uma doença e disseminar informações que possam levar ao seu controle.”


MANUAL DA SAÚDE NA COPA

Por que o cuidado?Megaeventos podem trazer riscos à saúde pública, com a rápida disseminação de doenças infecciosas “importadas” de seus locais de origem ou pelo adoecimento de pessoas não imunes ou “adaptadas” às doenças ditas locais. Deve-se considerar que, quando uma doença é introduzida em um país ou uma zona até então livres do mal, ela se apresenta normalmente com um quadro mais grave, devido à existência de primoinfectados (pessoas infectadas pela primeira vez).

Doenças que podem aparecerServiços de assistência e vigilância à saúde devem estar em alerta para a possibilidade de ocorrência de doenças incomuns e inesperadas ao país. As mais conhecidas são: dengue 4, sarampo, rubéola, poliomelite, além de novos subtipos de influenza, febres hemorrágicas africanas e doenças endêmicas, como malária, febre amarela e outras arboviroses.

O que tem sido feitoA Secretaria de Vigilância em Saúde enviou técnicos para as Olimpíadas de Inverno 2010, em Vancouver, no Canadá, e para a Copa do Mundo da África do Sul para acompanhar as experiências desses países. Material didático da Organização Mundial de Saúde sobre eventos de massa tem sido adequado para a realidade brasileira. Já foram iniciados os estudos de Planos de Prontidão e Resposta para Possíveis Emergências em Saúde. Secretarias de Saúde de cidades-sede da Copa do Mundo estão em fase de realização de planos específicos e de capacitação profissional para a prontidão e a resposta a possíveis emergências.

O que a população pode fazerNão há motivos para alarde, desde que seguidas as orientações já conhecidas de higiene e prevenção de doenças. A agenda de vacinas deve estar em dia. Existe um planejamento em execução de todos os países perante a OMS, para que as equipes de vigilância em saúde estejam de prontidão durante o Mundial.

A Sudeco e a região solução


CORREIO BRAZILIENSE, Brasília-DF, 14 de fevereiro de 2011
RODRIGO ROLLEMBERG
Senador pelo PSB do DF
 
O Centro-Oeste já foi chamado de região solução. Numa época em que o país convivia com altas taxas de inflação e intensos desequilíbrios demográficos, as vastas fronteiras agrícolas da região, somadas ao imenso potencial de sua agroindústria, representavam perspectivas de solução dos problemas nacionais. Com efeito, propunha-se que o Centro-Oeste absorvesse o excedente de mão de obra, oriundo principalmente do Nordeste, e aumentasse
o excedente exportável, de modo a gerar divisas em moeda forte.

O Centro-Oeste cumpriu, em boa parte, tais funções. De fato, a região cresceu bem acima da média nacional. No início dos anos 1960, a economia da região contribuía com 2,4% do PIB nacional, sendo que, ao fim dos anos 1980, tal participação já havia chegado aos 8%. Ademais, a região absorveu grandes contingentes migratórios e a sua população se expandiu, entre 1970 e 2005, numa taxa média anual de 3%, bem acima da taxa de crescimento médio da população brasileira (1,9%).

Nesse processo de crescimento e de integração cada vez maior ao espaço nacional, a antiga Superintendência de Desenvolvimento do Centro-Oeste (Sudeco) teve participação relevante. Mesmo com suas limitações, a antiga Sudeco contribuiu para planejar o desenvolvimento do Centro-Oeste, aprimorar sua infraestrutura básica e estimular a agroindústria regional, agregando valor à produção primária.

Entretanto, a vitória do modelo neoliberal mudou radicalmente o contexto histórico do Brasil e da nossa região. A ideia de que o Estado deveria planejar os destinos do país e intervir para amenizar as desigualdades sociais e regionais foi substituída pelo paradigma do Estado mínimo, segundo o qual caberia ao mercado dirigir o desenvolvimento. Em consequência, os mecanismos de planejamento estatal foram enfraquecidos. A Sudeco e as outras superintendências de desenvolvimento regionais foram extintas.

A omissão estatal e a estagnação da economia brasileira levaram ao agravamento dos problemas nacionais e regionais. O Centro-Oeste diminuiu sua participação no PIB nacional de 8%, em 1989, para 6,5%, em 1995. Surgiu um cenário de deterioração, especialmente na região do Entorno do Distrito Federal, que passou a absorver as camadas mais pobres da capital, sem ter, em contrapartida, a infraestrutura necessária para cumprir tal função. A região solução transformou-se numa região problema.

Tal quadro de estagnação começou a mudar a partir de 2003. O governo Lula conseguiu combinar crescimento econômico com equilíbrio macroeconômico, geração de empregos, distribuição de renda e criação de um amplo mercado interno de consumo de massa. O social tornou-se o eixo do novo ciclo de desenvolvimento, o qual, combinado com o maior protagonismo internacional do país e a consolidação de sua democracia, mudou o patamar histórico do Brasil. Hoje, nossas perspectivas são amplas.

Nesse novo contexto, o combate às desigualdades regionais e o planejamento estratégico do espaço nacional têm de caminhar ao lado do esforço pela superação das desigualdades sociais. Por isso, decidiu-se recriar a Sudeco que, segundo o ministro da Integração Nacional, Fernando Bezerra, passará a funcionar brevemente. Trata-se de uma nova Sudeco, que, além de ter de persistir na solução dos históricos problemas de infraestrutura e sociais, tem dois novos desafios a enfrentar. O primeiro tange ao desenvolvimento sustentável. As mudanças climáticas impõem o abandono da atual economia carbonizada e a transição para a economia verde.

O Centro-Oeste, que tem três dos mais ricos biomas do planeta, o cerrado, a Amazônia e o pantanal, possui potencial gigantesco para basear seu desenvolvimento em áreas de grande futuro, como o turismo, a biotecnologia e a produção de energias limpas e renováveis. O segundo é o da implantação da sociedade do conhecimento, que gere educação de qualidade para todos, inclusive mediante a inclusão digital, e inovação tecnológica massiva, de modo a agregar valor à produção regional e aumentar nossa competitividade internacional.

Hoje, as fronteiras a serem desbravadas são as da sustentabilidade ambiental e da inovação tecnológica. A Região Centro-Oeste tem tudo para superar esses desafios históricos. Se assim o fizermos, com o apoio da nova Sudeco, temos tudo para ser, de fato, uma região solução, que se coloque na vanguarda do novo ciclo histórico de desenvolvimento nacional.

Projeto cria grande centro de ciência fora do eixo Rio-SP

São Paulo, domingo, 13 de fevereiro de 2011



Complexo idealizado por neurocientista no RN, que abrange de medicina a astronomia, tem apoio federal

Ministério da Ciência e Tecnologia, porém, terá corte de verba; cientista reclama da ausência do governo local

Divulgação/Universidade Duke

Macaco usado nas pesquisas de interface cérebro-máquina; área será destaque no instituto

GIULIANA MIRANDA
SABINE RIGHETTI
DE SÃO PAULO

Um ambicioso projeto, com apoio do Ministério da Ciência e Tecnologia, pretende transformar o Rio Grande do Norte em um dos maiores polos científicos nacionais.
Seria o maior complexo tecnocientífico fora do eixo Rio-SP: um parque tecnológico de ponta, com estudos avançados de neurociência, incluindo também centros de educação básica e de estudos de astronomia.
Além desses novos espaços, o projeto vai integrar também iniciativas que já existem ou que estão em fase de construção na região metropolitana de Natal.
O projeto está em fase de finalização dos detalhes e captação de recursos.
"Vamos trazer ao Brasil grandes pesquisadores internacionais para pensar projetos de futuro com mais liberdade e olhando lá na frente", disse à Folha o ministro Aloizio Mercadante.
O idealizador do complexo é o cientista brasileiro Miguel Nicolelis, chefe do departamento de neurociência da Universidade Duke (EUA).
Ele também participou da concepção de dois projetos que já estão funcionando no Estado: o Instituto Internacional de Neurociências de Natal Edmond e Lily Safra, com estudos de ponta na área, e duas escolas de educação científica para estudantes da rede pública.
"A escolha do Rio Grande do Norte não foi à toa. Queremos desenvolver uma região que normalmente não tem oportunidade. É uma chance incrível para desenvolver tanto economia quanto ciência, cultura e educação", afirmou Nicolelis.
Boa parte do complexo ficará em um terreno doado pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte, que ficou conhecido como "Campus do Cérebro".
Lá, já funciona um centro de saúde que, no ano passado, fez mais de 15 mil atendimentos às mulheres da região. Uma escola de ensino integral, com investimento de R$ 15 milhões, está em construção e deve ser inaugurada no ano que vem.

OBSTÁCULOS
Apesar de vários parceiros já terem demonstrado interesse, o financiamento para as obras do complexo, que deve custar R$ 2 bilhões, ainda não existe.
O MCT, que manifestou interesse em contribuir e atrair recursos, sofreu recentemente redução de cerca de 15% de seu orçamento.
No corte de gastos gerais de R$ 50 bilhões feito pela presidente Dilma Rousseff na semana passada, houve outra redução, superior a R$ 1 bilhão, nesse ministério.
Além da questão financeira, o projeto também vai ter de enfrentar a falta de infraestrutura na região.
Até hoje, parte do acesso ao Instituto Internacional de Neurociências não é asfaltada. Pesquisadores e autoridades por vezes precisam eventualmente enfiar o pé na lama para chegar até lá.
Nicolelis cobra enfaticamente mais ações do poder público local para resolver a questão, inclusive através de sua conta no Twitter.
"Entra e sai político e é tudo continua igual", diz. Apesar disso, ele se diz confiante que o complexo irá conseguir apoio público integral.
O interesse internacional, por outro lado, já chegou. Uma matéria na revista "Science", em dezembro do ano passado, abordou o projeto e destacou a iniciativa de tirar o foco científico exclusivamente do eixo Rio-SP.
"Depois da matéria, fui procurando por várias instituições internacionais que querem de alguma forma investir aqui", diz Nicolelis.
"É a prova de que é possível, sim, fazer ciência de alto nível e com inclusão social no Brasil", completa.

Centro já tem computador de US$ 20 mi

DE SÃO PAULO

O futuro Instituto de Estudos Avançados do Cérebro Alberto Santos Dumont é a maior aposta do complexo do Rio Grande do Norte.
"O objetivo é fazer no Nordeste as pesquisas de ponta que nós já fazemos nos Estados Unidos e na Europa e ainda ir além", diz o neurocientista Miguel Nicolelis, idealizador do projeto.
O local é concebido para permitir análises em tempo real de grandes dados da atividade do cérebro. Algo que demanda investimentos altíssimos em equipamento.
Embora o instituto ainda esteja no papel, o seu supercomputador já está garantido. A Escola Politécnica Federal de Lausanne, na Suíça, doou uma máquina com capacidade de processamento de 46 trilhões de operações por segundo.
O equipamento, que custou US$ 20 milhões (cerca de R$ 34 milhões) e pesa oito toneladas, já está no Rio Grande do Norte, à espera do início das atividades.

CÉREBRO-MÁQUINA
Nicolelis pretende usar o supercomputador para avançar em seus estudos sobre as interações cérebro-máquina.
O neurocientista é referência na área e já conseguiu fazer com que macacos controlassem um braço robô, além de outros dispositivos, usando a força da mente.
No Brasil, os estudos envolverão humanos, que participarão de um monitoramento indolor.
As pessoas se acomodarão em um dispositivo, parecido com os antigos secadores de cabelo dos salões de beleza, e controlarão um ambiente de realidade virtual apenas com seus pensamentos.
No plano virtual, poderão mexer em tudo.
Ao mesmo tempo, suas atividades serão recolhidas e processadas em tempo real pelo supercomputador.
"A quantidade de informação gerada será incrível. Acredito que teremos excelentes resultados", diz Nicolelis. (GM e SR)