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quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Avanço na vacina contra a dengue

Substância deve estar disponível em 2014 Começa a última fase da pesquisa clínica da possível imunização contra a doença. Entre voluntários de 15 países, há cerca de 4 mil brasileiros

Correio Braziliense. Brasília-DF,  19 de outubro de 2010. Ciência.
 
São Paulo — As primeiras doses da tão esperada vacina contra a dengue poderão ser aplicadas nos brasileiros até 2014, se tudo correr como o previsto. Acaba de começar no país a terceira e última fase da pesquisa clínica, com cerca de 4 mil voluntários de Goiânia, Vitória, Natal, Campo Grande e Fortaleza, que iniciam os testes até o fim do mês. O estudo tem como objetivo confirmar a segurança da vacina após a aplicação de suas três doses, a cada seis meses.

O Brasil é um dos 15 países incluídos no programa mundial de estudos clínicos da empresa Sanofi Pasteur, que conseguiu produzir a primeira vacina a alcançar as etapas mais avançadas de desenvolvimento clínico. Tamanha é a chance de aprovação da vacina pelos órgãos regulatórios que a fábrica onde será produzida em larga escala começou a ser construída na França em 2009 e já produz as doses comerciais para testes de equivalência.

Até agora, 13 mil voluntários desses países já receberam pelo menos uma dose da vacina, que foi bem tolerada. Até o fim desses estudos e antes de a dose ser aprovada e disponibilizada na rede pública de saúde, 45 mil pessoas devem participar da última fase da pesquisa clínica, na qual é avaliada sua eficácia. É nessa etapa que é possível quantificar o número de casos de sucesso. A principal diferença com a fase anterior é que se trata agora de estudos em múltiplos centros de pesquisa pelo mundo com ampliação considerável de voluntários.

O Brasil, inclusive, está finalizando outro estudo da mesma vacina, conduzido por Reynaldo Dietze, diretor do Núcleo de Doenças Infecciosas da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes). Nessa pesquisa de segurança, iniciada em 2010, 150 voluntários foram vacinados. Os resultados foram semelhantes aos do restante do mundo. “Estamos finalizando a terceira dose da vacina e o que se observa são efeitos colaterais muito pequenos e nada diferentes do que já está descrito na literatura”, comemora o pesquisador.

O novo estudo de eficácia, iniciado na Ufes em agosto, vai observar de 800 a 1.000 crianças, entre 9 e 16 anos, faixa etária que apresentou mais complicações da doença nos últimos anos. Nos próximos 48 meses, qualquer episódio febril do grupo será avaliado. Metade dos voluntários toma a vacina e a outra, um placebo, caracterizando um estudo duplo-cego. Os pesquisadores também não sabem quem recebeu cada um, evitando um direcionamento das avaliações, o que o caracteriza como uma avaliação randomizada. Todos os participantes são de bairros da capital capixaba, Vitória, com alto risco de transmissão de dengue. A doença é transmitida pela fêmea infectada do mosquito Aedes aegypti e pode atingir todo o organismo (a chamada doença sistêmica).

Dificuldades
Enquanto começam os estudos de fase 3 no Brasil, o primeiro estudo do tipo, na Tailândia, é finalizado. Segundo o diretor regional de Pesquisa e Desenvolvimento para América Latina da Sanofi Pasteur, Pedro Garbes, o próximo passo é dar seguimento aos estudos de eficácia — como o iniciado no Brasil — nos demais centros mundiais. A perspectiva de sucesso da vacina, que, segundo o laboratório, deve ficar pronta em 2014, é fruto de anos de investigação. “Já são 60 anos de trabalho científico em dengue, principalmente para a identificação dos quatro diferentes sorotipos da doença”, frisa Garbes.

A Sanofi Pasteur dedica-se à vacina contra a dengue desde 1994. Antes disso, o próprio Albert Sabin, no pós-guerra, já tinha desenvolvido uma vacina contra o tipo 1 da doença. Uma das principais dificuldades para chegar à dose com 70% de eficácia (nenhuma vacina consegue 100% de imunização, alegam especialistas) foi o fato de a doença ser causada por quatro diferentes tipos de vírus. Também está aí uma das principais inovações da vacina, que, em vez da clássica atenuação de vírus, foi desenvolvida por meio de engenharia genética. Para isso, o genoma de cada um dos quatro tipos de vírus foi recortado e colocado no vírus vacinal, porém já mais fraco, da febre amarela, que tem perfil de segurança muito conhecido.

Apesar de ainda em fase de testes, a importância da vacina para a saúde pública tem adiantado negociações para o uso comercial. Segundo o coordenador do Programa Nacional de Controle da Dengue do Ministério da Saúde, Giovanini Coelho, o governo já trabalha em um plano de introdução da vacina. “Trata-se de uma vacina de altíssima prioridade para o Ministério da Saúde. E como não é algo que vem de uma hora para outra, já criamos um grupo de trabalho para discutir, por exemplo, a provável faixa etária a receber as primeiras doses. Embora queiram fazer uma avaliação positiva, certamente, em um primeiro momento, os fornecedores não vão ter vacina para todo mundo. Obviamente, a vacina estando disponível em 2014, a ideia é que seja incorporada no programa de vacinação imediatamente e que seja gratuita.”

PROCESSO DE INFECÇÃO
Mosquito da dengue - Aedes aegypti

1 - Contágio
A fêmea do mosquito Aedes aegypti pica o ser humano, geralmente, nas primeiras horas da manhã ou nas últimas horas da tarde, e introduz o vírus no organismo, caso esteja infectada.

2 - Incubação
O vírus entra nas células para conseguir se replicar (multiplicar). O momento que vai da inoculação (entrada) do vírus no organismo até a aparição dos primeiros sintomas é chamado de período de incubação, que pode durar de três a sete dias, dependendo da quantidade de vírus introduzida.

3 - Replicação
O vírus logo começa a se replicar e cresce em número a ponto de romper e matar a célula. Esses vírus penetram em novas células e o processo vai, progressivamente, se espalhando pelo organismo por meio da corrente sanguínea (infecção generalizada).

4 - Inflamação
Os primeiros sinais de dengue aparecem quando há uma quantidade suficiente do vírus no organismo, capaz de produzir os sintomas. Como se trata de uma doença sistêmica, ocorre um processo inflamatório generalizado, que pode acometer o sistema nervoso, os rins, o fígado, o pulmão, o tubo digestivo e vários outros órgãos. Uma das complicações é a disfunção dos vasos sanguíneos, que não conseguem reter o plasma, levando a uma concentração dos glóbulos vermelhos e, consequentemente, a uma baixa perfusão sanguínea (menor irrigação) nos órgãos.



terça-feira, 18 de outubro de 2011

Ataque às pragas

Pesquisadores dos EUA e do México modificam a toxina Bt, amplamente usada em lavouras de todo o mundo, e a tornam mais eficaz no combate aos bichos que afetam as plantações
» Thais de Luna

A mariposa Plutella xylostella, que se tornou resistente à toxina Bt (Alex Yelich/Divulgação)
A mariposa Plutella xylostella, que se tornou resistente à toxina Bt

Insetos, ácaros e fungos são alguns dos pesadelos de agricultores em todo o mundo. Considerados pragas, esses seres atacam as lavouras e, segundo estimativas, destroem cerca de 30% das plantações apenas no Brasil. Para contornar essa situação, produtores rurais recorrem ao uso de inseticidas, entre eles a toxina da bactéria Bacillus thuringiensis (Bt), usada há pelo menos 15 anos em nações que autorizam a produção agrícola de transgênicos. O problema é que, quanto mais se usa um composto tóxico, maior é a probabilidade de as pragas se adaptarem a ele. De olho nessa questão, um estudo publicado recentemente na revista Nature Biotechnology, realizado por pesquisadores da Universidade do Arizona, nos Estados Unidos, e da Universidade Nacional Autônoma do México (Unam), revelou que uma pequena modificação na estrutura da toxina Bt a torna eficiente para combater mesmo os insetos que sofreram mutações genéticas e ficaram resistentes à versão natural do composto.

A toxina Bt é amplamente utilizada, especialmente no cultivo de milho, algodão e batata. Dados mostram que, apenas no ano passado, o composto foi usado, em forma de spray ou na alteração genética de vegetais, em mais de 140 milhões de acres de plantação no planeta. A Bt tem ação muito específica, pois só mata os seres que possuem uma enzima chamada receptor de caderina em seu intestino. Quando a toxina é ingerida por insetos que contêm esse receptor, ela é quebrada e entra nas células da parede intestinal do animal. Em seguida, causa a destruição das células e a consequente morte da praga.

Um dos autores da pesquisa, Mario Soberón, especialista em biologia molecular e professor da Unam, diz ao Correio que alguns insetos — como a mariposa Plutella xylostella e determinadas espécies de besouros e lagartas, entre outros — criaram um mecanismo de resistência ao composto, ao sofrerem mutações genéticas no receptor de caderina. “Nós, então, modificamos a estrutura da toxina para ela ser absorvida diretamente pelas células dos animais cuja enzima sofreu mutação. Assim, a Bt não ia precisar do receptor de caderina em sua forma intacta para matar as pragas”, descreve.

O líder do estudo, o professor de entomologia da Universidade do Arizona Bruce Tabshnik, afirma à reportagem que, inicialmente, ele e sua equipe acreditavam que a versão modificada da toxina Bt seria eficiente apenas contra insetos cuja resistência ao composto tinha como base a mutação genética na enzima presente no intestino. “Esse receptor é o que se liga à toxina Bt original nos insetos suscetíveis a ela”, explica. Testes em laboratório com as pragas, porém, revelaram que a atuação do composto é ainda mais ampla. “Surpreendentemente, a toxina modificada foi eficaz contra alguns insetos cuja resistência não era causada pela modificação na caderina, além de nem sempre ter combatido as pragas que têm o receptor alterado”, comenta o norte-americano.

O doutor em microbiologia e entomologia agrícola Ítalo Delalibera Júnior, professor da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, da Universidade de São Paulo (USP), acha interessante que a pesquisa tenha conseguido contrariar a hipótese difundida na comunidade científica de que a toxina Bt modificada geneticamente só seria eficaz contra insetos que fossem resistentes à toxina original. “Os compostos que tiveram a estrutura modificada pelos autores foram muito mais potentes (até 350 vezes) do que os originais contra as populações de insetos resistentes, independentemente da presença ou ausência de mutações nas enzimas do intestino.”

Vantagens

Tabshnik ressalta a importância dessa pesquisa para a comunidade científica: “Com a análise, podemos entender melhor como a toxina mata insetos e como eles se tornam resistentes a ela”. Já para a sociedade, a relevância do estudo está no uso potencial de toxinas modificadas para fazer, de maneira ecologicamente sustentável, o controle de pragas.

Alejandra Bravo, coautora da pesquisa e professora de biologia molecular da Unam, destaca que plantações transgênicas mais resistentes a insetos têm sido úteis na diminuição do uso de inseticidas químicos e, em alguns casos, no aumento do rendimento dos produtos cultivados. “Portanto, nossa versão modificada da toxina Bt poderia ser uma ferramenta valiosa para combater a presença desses animais no campo, o que pode resultar no uso prolongado dessa importante tecnologia”, diz. A empresa de biotecnologia dos Estados Unidos Pioneer analisa atualmente o potencial de comercialização da toxina Bt alterada.

O entomologista norte-americano adverte que os animais sempre vão se adaptar a táticas de controle. Tabshnik conta que o próximo passo da pesquisa é determinar se a forma modificada da proteína tóxica a pragas é eficiente no campo, já que os testes foram feitos apenas em laboratório

Correio Braziliense. Brasília-DF,  18 de outubro de 2010 

domingo, 16 de outubro de 2011

Alface transgênica pode ajudar no diagnóstico do vírus da dengue

 
Uma parceria entre a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), a Universidade de Brasília (UnB) e a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) estuda o uso da alface transgênica no diagnóstico do vírus da dengue.

A ideia, de acordo com a Embrapa, é produzir um kit de diagnóstico mais econômico e eficiente, capaz de agilizar a detecção da doença pela rede pública de saúde. Os kits de diagnóstico à base de plantas, segundo o órgão, representam um décimo do valor dos convencionais.

O processo consiste na introdução de uma parte do gene do vírus da dengue no DNA da planta. Em seguida, ela é colocada em um meio de cultura com antibiótico, o que vai garantir que apenas as células que receberam o gene do vírus sobrevivam. Por fim, a planta é transferida para um tubo de regeneração.

São necessários quatro meses para a conclusão do procedimento. Ao final, a alface transgênica produz uma partícula viral defeituosa, que será aproveitada como reagente a ser misturado ao sangue coletado. Conforme a reação, o medicamento indicará se o paciente está com os anticorpos do vírus da dengue.

A pesquisa está em fase de validação. O antígeno está sendo testado com o sangue de pessoas que tiveram a doença, que estão registradas no banco de dados da Fiocruz. A expectativa da Embrapa, entretanto, é que a validação demore em torno de dois anos, já que é preciso um aproveitamento de cerca de 95% para que o produto seja liberado para comercialização em grande escala.

Correio Braziliense. Brasília-DF,  10 de outubro de 2010. Saúde. 

Após o surto de 2010, governo antecipa trabalho de prevenção à dengue


A chegada da chuva é bem recebida após longos 107 dias de intensa seca no Distrito Federal. A estação, no entanto, traz o perigo do aumento de incidência da dengue. O mosquito vetor da doença, o Aedes aegypti, deposita os ovos em água limpa e parada, situação recorrente em períodos chuvosos. Entre janeiro e agosto deste ano, a Secretaria de Saúde já confirmou 1.359 casos de dengue, um aumento de mais de 238% em relação a 2009 — 2010 não serve para comparação, já que houve um surto da doença (veja Quadro). A cidade em que o panorama preocupa mais é Planaltina, com 773 registros e 114 infecções confirmadas. Até o fim da semana, sai um novo boletim contabilizando as notificações do mês de setembro.

Para evitar a escalada no número de infectados e tentar minimizar as chances de epidemia nos meses com maior precipitação pluviométrica, a coordenação do Programa de Prevenção e Controle da Dengue organiza, entre 17 e 25 de outubro, mais uma semana de ações intensivas e educativas nas cidades mais vulneráveis à proliferação de casos. As atividades englobam mutirões de limpeza, recolhimento de objetos que são criadouros em potencial, além de inspeção das casas de regiões mais afetadas. Além de voluntários, haverá a volta dos agentes de saúde, que ficaram em greve por 11 dias até aceitarem a proposta do governo na última sexta-feira.

A prevenção começou mais cedo do que o usual, em 20 de setembro — o trabalho costuma ter início na segunda quinzena de outubro —, e durará até maio. O coordenador do programa, Ailton da Silva, explica que a sociedade tem papel fundamental no trabalho de prevenção e combate aos focos de reprodução dos mosquitos. “Prevenir a dengue é uma questão de solidariedade, sentimento que precisa imperar. É um mosquito democrático, não respeita classe social. Por isso, estado e sociedade devem se unir para combater a doença”, defende. Segundo ele, pesquisas constatam que 80% dos focos são identificados em residências.
Mesmo com pneus à mostra na porta da loja na Estrutural, o borracheiro Antônio garante se precaver (Fotos: Breno Fortes/CB/D.A Press)
Mesmo com pneus à mostra na porta da loja na Estrutural, o borracheiro Antônio garante se precaver


Além de Planaltina e Samambaia, onde estão concentrados 155 dos 855 casos confirmados no DF, cidades com menor infraestrutura sanitária, como Itapoã e Estrutural, merecem atenção especial, já que houve aumento no número de pessoas contaminadas. Na Estrutural, por exemplo, o avanço da dengue ultrapassa 240%. Em 2009, eram 39 registros. Neste ano, há suspeitas de contaminação entre 133 moradores. A doença é bem conhecida pela dona de casa Marlene dos Santos Fonseca, 28 anos, moradora da cidade. O marido dela foi contaminado há cerca de seis meses.

Com os dois filhos, João Paulo, 7 anos, e Paulo Henrique, 3, ela mora no andar de cima do bar da família. A Vigilância Ambiental costuma passar por lá para vistoriar as instalações e identificar possíveis focos de dengue. Marlene afirma que as garrafas são completamente esvaziadas antes de voltar para o engradado e o local onde elas são armazenadas é coberto e sem risco de ser afetado pelas chuvas. Ela acredita, no entanto, que é preciso um esforço coletivo na cidade para minimizar as chances de proliferação do mosquito transmissor. “Se só eu cuidar, não adianta. Tem de haver a colaboração de todo mundo”, alerta. João Paulo, por sua vez, cobra dos pais o que aprende na escola. “Tem que tirar pneu velho e deixar as vasilhas viradas para baixo”, ensina o menino.

A borracharia de Antônio Lima, 31 anos, tem grande potencial para a proliferação do Aedes aegipty. Há pilhas de pneus, ferro velho e vasilhas de água espalhados. Ainda assim, Lima garante ser o mais cuidadoso possível. Ele jura retirar os pneus da rua quando chove e esvaziar os reservatórios de água todos os dias após o expediente. Lima mora no mesmo terreno da oficina e nunca teve dengue. Para ele, no entanto, apesar das visitas da vigilância, seria melhor ter mais esclarecimentos. “Falta um pouco de informação de como prevenir”, afirma.

Cidades mais vulneráveis

Planaltina     773 notificados     114 confirmados

Samambaia    733 notificados    141 confirmados

Ceilândia     376 notificados    39 confirmados

Santa Maria    357 notificados    13 confirmados

São Sebastião     247 notificados    52 confirmados

Sobradinho 2     169 notificados    56 confirmados

Balanço
Casos até:    Ago/    Ago/    Ago/  Variação(%)  Variação (%)

    2009    2010    2011    9/11    10/11
Notificados  1.514  19.465  5.521  264,7  -71,6

Confirmados  402  12.397  1.359  238,1    -89


Ariadne Sakkis

Correio Braziliense. Brasília-DF,  04 de outubro de 2010. Cidades.

Coleção de insetos do IOC completa 110 anos e tem 5 milhões de espécies

 
Besouros da ordem Coleoptera da coleção entomológica da Oswaldo Cruz (Rodrigo Méxas/IOC Fiocruz/Divulgação)
Besouros da ordem Coleoptera da coleção entomológica da Oswaldo Cruz

O homem cresceu e dominou o planeta, mas nem de longe consegue a proeza dessas pequenas criaturas. Espalhados em todos os lugares da Terra, os insetos são hoje o grupo animal mais numeroso existente na superfície — tanto que os cientistas não chegam a um acordo sobre a quantidade de espécies existentes. Para ter uma ideia, mais da metade de tudo que é vivo (incluindo plantas e fungos) é composta por esses minúsculos bichinhos, muitos dos quais nem sequer foram identificados. Toda essa diversidade faz com que seu estudo seja um dos mais complexos em biologia. No Brasil, um dos principais centros de pesquisa nessa área é o Instituto Oswaldo Cruz (IOC). Lá, 5 milhões de exemplares compõem um dos mais amplos catálogos sobre os insetos da América Latina.

A coleção começou a ser formada há 110 anos, quando o próprio Oswaldo Cruz identificou o mosquito Anopheles lutzi, transmissor da malária. Cruz e outros importantes cientistas, como Adolpho Lutz, foram catalogando espécies encontradas em todo o território brasileiro, incluindo o Triatoma infestans, conhecido como barbeiro e transmissor da doença de Chagas; e o Aedes aegypti, mosquito que carrega o vírus da dengue e da febre amarela. Mas a galeria vai muito além dos vetores de doenças tropicais. As peças incluem besouros, borboletas, grilos, gafanhotos, moscas e por aí vai. “Esse material é um testemunho da história da ciência no Brasil, porque documenta o resultado dos primeiros estudos biológicos realizados no país”, afirma Jane Costa, curadora da Coleção Entomológica do IOC.

A arte de observar e catalogar insetos, conhecida como entomologia, existe desde os tempos do filósofo Aristóteles, que viveu por volta do ano 300 a.C. De lá para cá, a tecnologia facilitou a vida desses amantes da natureza, mas a análise dos insetos ainda é “manual”. Embora os cientistas tenham à disposição microscópios poderosos para visualizar o corpo desses animais, a comparação com outras espécies já identificadas precisa ser feita uma a uma, com cautela e paciência. “Nós estamos lidando com o grupo mais diverso do planeta, que tem uma série de adaptações morfológicas para os mais variados ambientes”, observa a pesquisadora Jane.

Baratas, por exemplo, são um dos bichos mais primitivos que existem. Elas têm seu formato há, pelo menos, 300 milhões de anos, e uma estrutura copiada e melhorada por outras categorias de insetos surgidas mais tarde. “O aparelho bucal de uma barata tem várias partes — língua, lábio, mandíbula — que também existem em borboletas, grilos e pulgas, só que em um configuração completamente diferente”, conta a curadora do IOC. Assim, mosquitos transformaram essas peças bucais em estiletes, capazes de furar uma superfície para sugar sangue. O mesmo aconteceu com moscas, que desenvolveram maneiras de captar o suco das frutas. “Ao longo de milhares de anos, todas essas espécies ganharam características que permitem a sua existência em diversos ambientes”, destaca Jane.

E a adaptação inteligente desses animais está longe de terminar. Muitos insetos que hoje vivem em regiões da Mata Atlântica, da Amazônia e do cerrado já são biologicamente preparados para mudanças climáticas. O barbeiro, por exemplo, pode suportar temperaturas até três graus mais altas do que hoje em dia. “Já está comprovado que, nessas condições, o mosquito vai gerar um número ainda maior de ovos e ter seu ciclo de vida encurtado”, explica a pesquisadora do IOC.

Caracterização
Toda essa elasticidade evolutiva fez com que as espécies de insetos se multiplicassem ao longo dos milhões de anos. A maioria delas, contudo, ainda é desconhecida. “É uma área de pesquisa difícil de ser esgotada. Estou agora em um projeto de identificação de animais do cerrado e do Pantanal e me impressiono com a quantidade de coisas que não conhecemos ainda”, conta o biólogo Carlos Lamas, do Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo (USP). Para catalogar um novo inseto, os cientistas realizam um longo trabalho de comparação, que começa com a observação minuciosa do corpo do inseto.

Nesse processo, feito com o auxílio de lentes de microscópio, eles estudam o tamanho, o formato, a coloração, a presença de cerdas ou pelos e todos os detalhes da anatomia interna e externa dos bichos. Se o pesquisador concluir que se trata de uma espécie diferente, precisa descrever todos os detalhes morfológicos e de coleta do animal. Também escolhe um gene para ser sequenciado e comparado com o DNA de outras espécies próximas. “Quanto mais informações a pessoa tiver sobre o animal e sobre o local onde ele foi encontrado, melhor é para o registro”, diz Jane Costa.

Não há um prazo determinado para a conclusão da tarefa, que pode durar anos. Se o inseto é de um gênero conhecido, que tem exemplares em uma colação entomológica de fácil acesso ao pesquisador, a descrição pode ser concluída dentro de alguns dias. “Em outros casos, o animal é de um gênero que tem 50 espécies, então, eu preciso comparar com todas”, esclarece Carlos Lamas. A dificuldade é ainda maior se essas espécies tiverem sido encontradas em outros países. Nesse caso, o cientista precisa pedir o envio do exemplar ou, até mesmo, viajar até a instituição onde está registrado o inseto. Com tudo pronto, a etapa final é a publicação de um artigo científico e o arquivamento do texto em, pelo menos, oito bibliotecas públicas espalhadas pelo mundo.

O holótipo (espécime-tipo, como se fosse o exemplar número um) deve permanecer em uma instituição que tenha condições de mantê-lo em bom estado. A conservação de insetos é relativamente fácil: normalmente, eles são alfinetados em gavetas com umidade e temperatura controladas (por volta de 20°C). O exoesqueleto de quitina dos bichos não se deteriora — na Europa, existem coleções com mais de 600 anos. “Há insetos maiores que precisam de um tratamento específico, com injeção de formol e retirada de órgãos internos”, detalha Jane, do IOC. “O processo de caracterização é um dos mais importantes para a ciência, ainda mais no Brasil. Por aqui, temos 10% da biodiversidade do planeta”, lembra.

Pioneirismo
O cientista Oswaldo Gonçalves Cruz foi um dos primeiros brasileiros a estudar as doenças tropicais no Brasil. Durante sua formação, estagiou no Instituto Pasteur, na França. Quando retornou, ajudou a controlar o surto de peste bubônica que atingiu a cidade de Santos e organizou campanhas sanitárias contra doenças como a malária e a febre amarela. É fundador do Instituto Soroterápico Nacional, hoje rebatizado de Instituto Oswaldo Cruz.

Ameaça da ditadura
Em 1970, parte da coleção entomológica do Instituto Oswaldo Cruz se perdeu devido à truculência da ditadura militar. Naquele ano, 10 pesquisadores do instituto foram cassados, entre eles, os biólogos Herman Lent, Hugo de Souza Lopes e Sebastião José de Oliveira. Além da expulsão dos especialistas, os militares recolheram material científico e colocaram no porão do antigo prédio do Hospital Evandro Chagas, no câmpus de Manguinhos, no Rio de Janeiro. Para tentar salvar o acervo, parte da coleção de dípteros foi enviada ao Museu de Zoologia da USP. Sete anos depois desse evento — que ficou conhecido como Massacre de Manguinhos —, as amostras retornaram ao Castelo Mourisco da Fiocruz. Lá, a largura das paredes e a altura do pé direito ajudam a consersar a temperatura e a umidade

Carolina Vicentin
Corrio Braziliense. Brasília-DF, 02 de outubro de 2010. Ciência. 

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Fiocruz anuncia fase de estudos da vacina contra dengue

Testes começarão nos centros da instituição no Amazonas, Ceará e Bahia

O ESTADO DE SÃO PAULO. São Paulo, 12 de outubro de 2011
 


 RIO DE JANEIRO - A vacina contra a dengue desenvolvida na Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) vai entrar em fase de estudos clínicos e deve ser concluída em quatro ou cinco anos, disse nesta terça-feira, 11, à Agência Efe o diretor de Bio-Manguinhos, unidade de vacinas da Fiocruz, Arthur Couto.

Segundo ele, os testes começarão nos centros da instituição nos estados do Amazonas, Ceará e Bahia.

O pesquisador informou que os estudos "estão muito avançados", mas reconheceu que a farmacêutica francesa Sanofi-Aventis leva vantagem em seu projeto de vacina contra a dengue, que já está na etapa final de desenvolvimento.

"Estamos atingindo os objetivos, mas ainda temos uma caminhada pela frente. Nossa expectativa é chegar ao produto e concluir seu registro em quatro ou cinco anos", disse Couto.

A Fiocruz, que trabalha em colaboração com a multinacional belga GlaxoSmithKline (GSK), pretende desenvolver uma única vacina contra os quatro sorotipos existentes do vírus, de maneira que se possa aplicar em uma só dose para facilitar a logística da distribuição em regiões remotas. Enquanto isso, o Governo apresenta seu plano para combater a dengue na temporada do verão, época de maior contágio.

Dentre as estratégias anunciadas nesta terça-feira pelo Ministério da Saúde, destaca-se a designação de incentivos financeiros aos municípios que cumprirem os objetivos de prevenção e do acompanhamento epidemiológico com apoio das redes sociais.

"O Ministério da Saúde utilizará todos os meios de informação para antecipar as ações contra a dengue. As redes sociais serão usadas dentro dessa estratégia", disse o ministro Alexandre Padilha em comunicado.

As redes sociais servirão como um sistema de vigilância complementar que alertará a detecção de novos casos por áreas geográficas, permitindo verificar regiões que apresentem um aumento significativo de contágios.

O secretário de Vigilância de Saúde, Jarbas Barbosa, afirmou que o Ministério está lançando uma série de iniciativas centradas no atendimento correto da população. Segundo ele, o Governo pretende incentivar a formação de 66 mil profissionais para melhorar o diagnóstico e o atendimento.

De acordo com o balanço epidemiológico, entre janeiro e setembro de 2011, o número de casos graves foi reduzido em 40% em relação ao mesmo período de 2010. O número de óbitos por causa da dengue diminuiu 25% e o número de casos notificados caiu 24%.

Em 2010, 550 pessoas morreram no Brasil pelo contágio desta doença transmitida pela picada do mosquito "Aedes aegypti", que nos casos mais graves chega a produzir hemorragias internas.